16 de mar de 2014

DESEJO NOTURNO – PARTE 6

        Comentando a discografia da banda finlandesa Nightwish.




     Quinto trabalho da banda finlandesa Nightwish, o álbum Century Child (Criança do Século), de 2002, é bem melancólico, nos temas e na sonoridade, sem deixar de lado o peso em algumas faixas, nem as características da banda até então presentes nos trabalhos anteriores, como o teclado abundante, voz lírica (começando a atenuar) e aquela impressão épica que fica ao escutar com atenção.




         Com um coral, voz narrativa e teclado crescente na introdução, Bless The Child (Abençoe a Criança) abre o disco com muita competência, muita melodia e melancolia, com ritmo não muito acelerado, falando sobre uma alma triste cheia de autopiedade, lamentando: “Por que só sou amado depois de ter ido embora (morrido)?”. A alma volta no tempo para abençoar a criança (ela mesma, acho) quando era inocente: “Sem inocência a esperança é apenas uma ilusão”. A letra exige conhecimento de certas referências culturais como nos versos: Há uma gota de veneno neste cálice do Homem/ Bebê-lo é seguir o caminho da mão esquerda”, sendo que em Teologia aprende-se que para os hebreus a mão esquerda representa o norte. Poético, não? Tornou-se obrigatória nos shows. O videoclipe mostra um visual bem gótico que combina com a música, Tarja parece uma vampira. 



            A música mais pesada do álbum e clara tentativa de repetir o sucesso de Wishmaster, dada a semelhança de sonoridade, End Of  All Hope (Fim de Toda A Esperança) consegue ter êxito em sua proposta, graças ao refrão repetitivo e grudento, que fica na cabeça. O nome deixa claro o tema, parece o apocalipse para um ser amargurado: “Este é o fim de toda a esperança /(...)Acabar com toda a inocência/ Ser alguém como eu”.  Faz também referência ao primeiro álbum: “Os anjos, eles caíram primeiro, mas eu ainda estou aqui”.O vídeo é feito com imagens ao vivo sem muita sincronia intercaladas com cenas de um filme finlandês de terror sobre vampiros, com efeitos bem legais. Uma das melhores faixas deste trabalho, com o pedal duplo da bateria em trabalho constante.
  
Com novo baixista (segundo à direita)


            Começando já clássica com voz dobrada, Dead To The World (Mortos Para O Mundo) é bem agitada e muito bem cantada por Marco Hietala (novo baixista e vocais de apoio) e claro, Tarja. Pra variar, fala do desejo de morte: “Rainha do paraíso, carregue-me/ Para longe de toda a dor.” Guitarras arranhadas em riffs rápidos ganham destaque nesta canção, também.
            A quarta faixa, Ever Dream (Já Sonhou?) começa bem suave, com piano e voz melancólica e explode com o teclado comandando, até entrar na parte cantada, bem melancólica e romântica mas com certo peso, é um clássico. Pura poesia apaixonada num furor de sensualidade: “Entregue-se, entregue-se para meu toque/ Para meu sabor, para minha luxúria”. Ouvir isso com a voz suave de Tarja é extremamente prazeroso. Também é desta canção um dos mais bonitos versos românticos que já li, que traduzido  fica mais ou menos assim: “Sua beleza caiu como uma cascata sobre mim”. - virou um dos maiores hits da banda em shows.
            Slaying The Dreamer (Assassinando O Sonhador) começa com um riff bem pesado, e segue assim até o fim, mas a partir da segunda metade, com os vocais masculinos, o peso dobra. A letra mostra fúria e decepção, além de autopiedade, demonstrando mais uma vez, inclusive afirmado em entrevistas, que Tuomas (tecladista e autor das letras) passava por uma fase difícil: “Canção do Cisne para o Desejo da Noite” (fim do Nightwish?).
            Eu tenho uma opinião pessoal sobre o motivo desta tristeza toda que permeia este álbum em particular, mas prefiro não revelar até postar minhas impressões sobre os demais álbuns. (este texto é originalmente de 2006). Mas chamo a atenção para mais alguns versos desta quinta música de Century Child: “Garoto estúpido/vivendo num sonho/ Romântico apenas no papel”.
            Mais uma canção triste, inclusive na sonoridade e ritmo bem lento, Forever Yours (Para Sempre Sua/Seu) se resume neste verso, que me lembra uma frase do Surfista Prateado: “O que quer que ande em meu coração andará sozinho”. A do Surfista é: “Onde quer que o Surfista Prateado vá, ele deverá ir sozinho”. Fala sobre um amor perdido que fez perder a razão de viver.
            A sétima canção começa e o ouvinte nem percebe, pois o ritmo é quase o mesmo da anterior, só que agora com bateria. Ocean Soul (Alma do Oceano) mostra mais uma vez a cultura ligada ao Oceano, o hábito de vislumbrá-lo: “Longas horas de solidão/ Entre mim e o mar. Olha a deprê: “Mais uma noite/Para suportar este pesadelo”.
            Outra canção com poesia romântica, no mesmo estilo da anterior e também boa, Feel For You (Sinto Por Você) também mescla a voz suave de Tarja com o vocal rasgado de Marco.
            Dispensando apresentações, Phantom of The Opera apenas apresenta uma versão pesada da conhecida música, que parece ter sido feita sob medida para o Nightwish, ou vice-versa. Os personagens de Christine e o Fantasma ficaram bem representados pelas vozes da banda.
            Finalizando o álbum, Beauty Of The Beast (A Beleza da Fera) tem mais de dez minutos e uma sonoridade de incrível qualidade, começando bem calma e a segunda metade desenvolvendo a parte épica, com bateria, teclados e coral de vocais líricos. A letra divide-se em 3 partes cujos nomes traduzidos são: Amor há muito perdido/ Uma noite a mais para viver/ Christabel, sendo que a última é uma voz narrativa masculina, se referindo a um livro cuja adaptação para filme eu assisti, mas não lembro o nome. Falava de um amor secreto entre um poeta famoso e a poetisa Christabel, que era lésbica. Não sei se o restante da letra tem a ver com literatura.  Os sempre tristes versos que se destacam e que parecem confirmar minha teoria a ser comentada futuramente são: “Toda esta beleza está me matando”, “O que deveria estar perdido está ali”, "Sei que minha maior dor ainda está por vir”, Todas as minhas canções/ Só podem ser compostas da maior das dores”.
            Este álbum serviu para consolidar ainda mais o sucesso do Nightwish como força do Heavy melódico na época. As canções inspiradas de Tuomas, embora refletissem tristeza, tinham também aquela beleza romântica que é inerente à palavra poesia como é mais conhecida. Uma colega de faculdade uma vez disse e concordo: pra ser poeta tem que sofrer, e pelo menos pra mim funcionava assim, tristeza trazia inspiração. Acho que para o tecladista e compositor do Nightwish, também.



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